2 de março de 2016

Peito Ártico

penetro tua caixa torácica
com meu coração fálico
faço dele um barco
para atravessar teu peito
ártico



Giovanni Venturini - 03/07/2015

17 de fevereiro de 2016

Peter

Peter, 

Muitas vezes temos a faca e o queijo na mão, mas optamos em ir até a ratoeira.
Caímos nas armadilhas do comodismo e do caminho mais fácil.

É muito mais simples nos colocar representando “um dos sete”, do que desenvolver um roteiro digno, com uma história que subverta essa lógica, que mostre o outro lado, que mostre o ser humano que somos. É muito mais fácil alimentar e contribuir para que nos enxerguem sempre como os seres mágicos, míticos e fantásticos, que na verdade não somos. 

Você mais do que eu, sabe que isso também se deve a um posicionamento nosso em não aceitar esses personagens. Enquanto tiver gente dizendo sim a essas condições, serão oferecidos somente esses estereótipos batidos e sem graça de personagens “feitos para nós”.

Ultimamente tenho conseguido me esquivar e escolher somente o que considero digno. Mas me pergunto: até quando? Vou bater de frente sozinho? Vou condenar quem aceita isso? Eu também já aceitei por muitas vezes...Todos temos que viver, pagar contas e nos alimentar.

O caminho é árduo e tomo alguns escorregões.

Quando você acha que está tudo indo para o lado certo, que o olhar das pessoas estão mudando, e que enfim conseguimos fazer a mídia nos enxergar com dignidade, eis que surge algo que nos arrasta à força ao mesmo ponto.

Peter, todos sabem que você é um ídolo e inspiração para que eu siga firme no caminho... mas confesso que vez ou outra dá um desgosto essa nossa profissão. Uma vontade de desistir e deixar tudo como está. Como mudar o olhar do mundo? Algumas decisões são difíceis. 
Às vezes, mas somente às vezes, me enxergo como todos os outros me enxergam: pequeno para mudar tudo isso.
Falta mais que criatividade para mudar. Falta coragem dos roteiristas, dramaturgos, escritores, diretores... até mesmo nossa.

Uma das lições mais valiosas que aprendi com a minha mãe é: “Quem quer faz. Não pede, não manda. Faz!”. Não podemos mais ficar esperando que os corajosos e criativos apareçam para mudar isso. Até porque são poucos os que pensam assim. Esse caminhar é nosso.

Por aqui os passos ainda são curtos. Vou precisar retroceder. Dar um passo atrás para me animar e conseguir dar dois à frente.
Ainda não enxergo o final do caminho. Talvez nunca o veja, mas quero ter certeza que cheguei o mais próximo possível.

Precisava dividir isso com alguém que me entendesse. Não achei pessoa mais indicada que você.
Sigamos! Você daí e eu daqui. Quem sabe um dia lado a lado.

Forte abraço.

Obrigado pelo combustível que você é.


Giovanni Venturini   - 15/02/16

30 de abril de 2015

atropelo

todos os dias nuvens atropelam prédios de 20 andares ou mais
o vento que balança tudo que se prende no fio elétrico
rabiolas, tênis e pombos
é o mesmo vento que joga o agora longe do tempo

já não tenho copos inteiros para usar
é sempre uma lasca, um caco ou rachadura
pra levar à boca
é sempre um corte, uma afta ou uma gota
pra calar a boca
esse mosaico incompleto que é a vida
esses retalhos e sobras de tecidos
esses recados de sombras distorcidas

a sujeira do meu pensamento
se traduz em papel amassado no quarto
as palavras por si só, não se bastam
se perdem em sentidos sem norte ou bússola
preferem a morte em qualquer esquina
se humilham e se jogam em qualquer trilho

é sempre o mesmo jogo de palavras
as mesmas rimas inocentes
rimas inocentes
rimas e no sentes
rimas e não sentes
nada

é fácil dormir e não sonhar
difícil é acordar contudo
é fácil escrever qualquer coisa que vem a mente
difícil é sentir cada vírgula que deixei de acreditar

penso no tom pra ler isso em voz alta
leio alto isso para imaginar como penso em silêncio
cada letra respirada é perdida
me falta fôlego pra dizer o que me tira o fôlego
engasgo com meus esses, erres, erros e egos
me perco, me calo e me cego
com as nuvens atropelando prédios
e eles seguindo intactos



(Giovanni Venturini - 06/04/15)

24 de dezembro de 2014

Carta de reconciliação

Para Vida


Você foi dura, foi seca, crua e aprontou comigo, Vida.
Esse tal Dois Mil e Quatorze foi difícil, inconveniente.
Chegou devagar me acariciando, e fazendo promessas
de amor, de trabalho, de melhoras, de tudo.
Demorou a passar, deu coice, foi duro
foi rude e dizem que foi o mais quente.
Eu cai na lábia Dele, e você também né Vida?
Esse complô de vocês foi covardia, e ainda mais desse Júpiter que regia.
Foram lágrimas, decisões, revelações e dúvidas.
A cada virada, uma nova trama, tipo novela Mexicana.
As coisas pioravam e vinha você Vida, me acariciando toda meiga
dizia que ia passar, que estava melhorando então surgia
um novo problema, uma nova ofensa.
Foi malvada, um tanto quanto satírica, sádica, sódica...caustica.
Corroendo e rindo a cada erro, a cada lágrima, a cada DESGRAÇA.
E olha, que não foram poucas, mas deixemos de lado essa palavra.
Ela atrai mais coisa ruim, minha mãe sempre diz isso para mim.
E por falar em atrair, em trair, em mentir
enganar, em sofrer, em fingir
você sabe muito bem o que é isso não é mesmo, Vida?
Foi o ano que você mais mentiu, sorriu amarela
com cara de inocente, fez juras, promessas
eu, inexperiente, cai em todas elas.
Mas teve uma hora que até mesmo você cansou.
As tempestades, trovões, os ventos, o fogo de Iansã e Xangô uma hora cessou.
Não tinha mais o que aprontar, o que fazer, onde revirar. Deu uma trégua.
Esse tal Dois Mil e Quatorze foi chato, mas aprendizado a gente sempre leva.
Olha, não sou só eu que ando reclamando, a grande maioria quer que acabe esse ano.
Vida, eu sei que vocês tiveram uma relação intensa e profunda, mas foi fugaz.
Aprendemos muito, evoluímos, amadurecemos, porém é hora de deixar Ele para trás.
Mesmo eu reclamando, foi importante ter vivido e passado por tudo isso.
Nada vai ser apagado, oque aconteceu ficou para sempre na memória.
Volta para mim Vida, chegou à hora.
Precisamos nos livrar de ferrugens,
larga desse tal Dois Mil e Quatorze, mas nada de Dois Mil e Crise.
Eu te perdoo, e espero que você também, afinal as falhas não foram só suas,
eu tenho minha parcela de culpa.
É hora de revirar essa página com nossos erros.
Vida, Dois Mil e Kiss-me , beije-me,
Quis-me, Queira-me inteiro.

Ansioso te espero.



Giovanni Venturini – 22/12/14

16 de dezembro de 2014

como ver uma mosca voando ao seu redor
e não ter a compulsão de matá-la
como um grão de pó que gruda na lente do seu óculos
e não querer limpá-la
como uma gota que invade seu relógio
que não é a prova d’água
como perder a tarraxa do brinco
que mais gostava
como estourar a correia do seu chinelo
e ter que andar descalça

eu sou essa coisa pequena
que te deixa incomodada
essa inconveniência
que não sai da cabeça
essa miudeza
que finge que não liga
essa impertinência
que te preenche inteira
eu sou aquilo que te irrita
e não te sossega
eu sou o pouco
que te faz muito
um pequeno nada

do seu tudo


Giovanni Venturini - 21/07/14

25 de novembro de 2014

hotel rodoviária - Danislau



Terminei de ler o Hotel Rodoviária de Danislau. E posso dizer que “atinge o máximo em perigo e precipício”, assim como às mulheres cientes de si.
O que acontece no livro e na mente de Danislau, não é justo julgar. Assim como as loucuras que ele/eu/nós/todos aprontamos nas madrugadas. “O que acontece na madrugada a boca da noite engole. Nunca será justo julgar eventos noturnos à luz do dia [...]
Todo mergulho tem um pouco de abandono, está aí a cauda do Cometa Halley para comprová-lo.”

E eu me sinto mergulhado, e abandonado. Abandonado pela história, pelas personagens, pela poesia. Abandonado nesse hotel, nessa rodovia, nesse texas brasileiro, por essa trama, essa novela mexicana-brasileña-holly-e-bolly- woodiana.

Abandonado e em silêncio.
“O silêncio da porta é a herança maior que esse amor me deixou”, o meu atual silêncio é a herança maior que seu livro me deixou.

Chega de elogio, porque “elogio, quase sempre é um recurso dispensável, muito mais ofensivo que edificante.”

Entendi que era hora de acabar, afinal “a cerveja sempre acaba porque a sede tem que continuar.”

E eu estou sedento por mais!

20 de novembro de 2014

fone dissolvido

em meu fone
de ouvido
o som
do nosso fim
dissolvido
no último
acorde
pra vida
soul
devolvido
Giovanni Venturini - 14/08/2014